As cadelas, que tinham acabado de se conhecer, estavam a brincar quando ocorreu o incidente. Não há discussão quando se diz que se estivessem atreladas, nada disto teria acontecido. Normalmente, a minha vai sempre presa quando há bolas, crianças ou muita gente no parque, mas confesso que a soltei para poder correr e socializar um bocado com a outra, pensando que correndo no espaço aberto de relva vazio não iria incomodar ninguém. Pelos vistos, é um tractor doido e cego que bem podia ir contra um poste que não era nada com ela. Neste caso, foi contra uma senhora. Uma senhora muito zangada e muito ruidosa.
Sendo que do pecado da falta de trela já não me safava, só me restava pedir muitas desculpas, perguntar onde doía, e oferecer-me para levar a senhora a casa ou ao hospital, se precisasse, e pagar por quaisquer cuidados que fossem necessários. Não quis. Quis chamar a polícia para nos multarem e para aprendermos a lição. Já sei que aqui haverá muitos apoiantes da decisão. Afinal, fomos cidadãs irresponsáveis e um perigo para a saúde pública. Estragámos o dia à senhora que caiu. Haverá quem diga que podia ter morrido. Haverá quem diga que poderá nunca mais recuperar do choque. Sem ironias, porque de facto, houve pessoas da turbe irada que disseram isso mesmo. Velhinhas incitadoras apontando dedos acusatórios e contando histórias de vizinhas que tinham partido pés em situações semelhantes; senhores bem intensionadas bradando telemóveis disponíveis para chamar a guarda e servirem de testemunhas; "senhoras" extremamente agressivas e prontas a empalarem as faltosas.
Enfim, sei que tive culpa, que as regras ditam que tenhamos SEMPRE o cão com trela, independentemente da idade e do tamanho, mas a reação das pessoas que testemunharam o evento, e outras tantas que se juntaram depois, assusta-me verdadeiramente. Formaram grupinhos destilando comentários desdenhosos e muito praticamente só faltando gritaram "Sangue!" Já alguns diziam que não tinhamos ligado nenhuma à senhora e que tinhamos voltado as costas deixando a vítima para trás. Como a senhora era de leste, já circulavam comentários de xenófobia. Admito que ainda respinguei com alguns deles, contribuindo ainda mais para o meu papel de persona non grata do parque.
A polícia chegou e não multou ninguém. Disse apenas que caso fosse necessário tratamento médico (que não foi) teriamos de pagar as despesas. Há quem diga que isso é inaceitável. Eu própria fiquei surpreendida por não ter sido multada. De qualquer forma, o linchamento verbal que os meus concidadãos me aplicaram foi multa suficiente para mim. E a noção de que quando as pessoas se juntam, havendo entre eles meia dúzia de incitadores, passam a comportar-se como uma massa irracional que em condições propícias é mais perigosa que os cães. Quando me fui embora, a senhora ficou a chorar de frustração.
Depois deste episódio, andei a consultar a legislação e fiquei a saber que todos os cães na via pública têm de usar trela OU açaime. O que significa que nem a lei pode evitar incidentes de cães que podem fazer cair pessoas. Resta o bom senso. Mas o bom senso diz-me que estamos a caminhar para um mundo pretensamente acolchoado, em que daqui a pouco até as crianças têm de andar de trela para não se meterem em sarinhos, ou temos todos de sair de capacete para a rua, nao nos vá cair na cabeça um pássaro com um enfarte. Enfim.. é discutível.
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