quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Contos do Velho Aziago

Em certa ocasião, encontraram-se dois amigos no café Três Quinze Dias, na bonita cidade de Setúbal, ainda nao eram três e um quarto da tarde. O primeiro, de nome Pedro Alvares, vinha armado de fato, gravata e pasta e, ainda, exímio vocabulário nao poucas vezes inútil ainda que impressionante, fazendo uso de palavras como "abisbilico" e outras que o leitor por certo dispensara tomar conhecimento. O segundo, chamado Joao Oliveira, era mais modesto em presunção, e talvez tambem em coração, pois que enquanto Pedro Alvares defendia, nesta reuniões três quinzenais, o valor do dever ser, Joao Oliveira, imbuído no seu rotineiro espirito de ofidio corporativo, respondia com tiradas de frigido materialismo que, frequentemente, desiludiam o 
seu velho compincha. Diferenças a parte, entre este advogado de boa índole e este jovem empresário amigo do dinheiro e do mais forte, os dois comparsas apreciavam as suas ocasionais reuniões para discutirem temas tao uteis como a melhor estratégia de sobrevivência a um ataque de insepultos ou, se tal se proporcionasse, os mistérios da física quântica e como tais se aplicariam ao bafo cálido de um dragão. 
Estando os intervenientes deste relato mais ou menos apresentados, e suas formas de estar, nessa tarde especifica, devidamente esclarecidas, repare o leitor que nesse dia Joao Oliveira vinha imbuído, espiritualmente, de assaz inquietação. Vinha, pois, queixando se a seu amigo, de como estava desiludido com a restauração do antigo sanatório para desgraçados tuberculosos, lá para o pe das Penhas Douradas, em desprezível e insipida pousada. Trazia uma fotografia do edifício degradado, tirada havia anos durante um passeio, que degradado estando e por isso mesmo, impunha de forma átona tal trovejar em seu coração que deslocar uma sua pedra esboroada era um corrupção infame 'a natureza de tal ser inanimado. Choramingava Oliveira, impulsionado por uma indignação inominável, pelas rachadas paredes afogadas em tinta branca, pelos vidros partidos e sujos substituídos por janelas de aquário, pelas esculturas magnificas de cascalho transformadas em frias linhas rectas, pelas sinfónicas e feéricas goteiras abafadas por música ambiente de elevador, pelos caminhos e corredores putreos e estaladicos cobertos por fofas alcatifas. 

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